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E agora, José?


Peço licença ao meu poeta preferido, que tem monumento em Copacabana, que um dia ficou tão perdido quanto eu agora que a Copa acabou. Licença Drummond, vou lhe parafrasear pois só você me entenderia no momento. Espero que daí da frente do mar, observando o calçadão, você se sinta homenageado. Obrigada. 

"E agora, José?
A copa acabou,
o estádio fechou,
o povo sumiu,
o Brasil nem empolgou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
que faz Meme no twitter,
que é de direita, protesta?
e agora, José?

Está sem a Cerva,
está sem churrasco,
está sem Firmino,
já não pode vencer,
já não pode lacrar,
chorar já não pode,
a noite Moscou,
o hexa não veio,
a sexta estrela não veio,
o Gabriel Jesus não veio,
não veio a vitória
e tudo flopou
e tudo sumiu
e tudo esgotou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua quase falta,
seu instante de gol,
seu Juíz, Dona FIFA
sua esperança,
sua medalha de ouro,
seu árbitro de vídeo,
sua tarde de feriado,
sua bandeira — e agora?

Com o Penta na mão
quer seguir a tradição,
não existe tradição;
quer jogar, Neymar
mas o Neymar rolou;
quer ir para o Qatar,
Qatar ainda não há.
José, e agora?

Se você jogasse,
se você corresse,
se você comesse,
o chocolate Belga
se você não cavasse pênalti,
se você não cansasse,
se a bola entrasse...
Mas você não joga, José!
você é duro, José!

Sozinho no campo
qual bicho-do-mato,
sem patrocínio,
sem modelo nua
para se beijar,
sem jatinho da seleção
que fuja a Paris,
você anda, José!
José, para onde?"

(Livre adaptação do Poema e agora, José? de Carlos Drummond De Andrade, 1942) 


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