Pular para o conteúdo principal

Amazônida, Leitora e escritora

Percebi que muitas vezes chego sem me apresentar. Talvez por eu ser tímida, talvez porque não gosto mesmo ou porque não vejo necessidade. O mundo atualmente corre tão veloz, mais que o próprio relógio, que se quiser conhecer alguém basta olhar as fotos no Instagram, as postagens no Facebook, uns memes no Twitter e pronto, vocês já são melhores amigos. Aliás, isso é algo que eu não entendo: Como podemos conhecer tanto as pessoas só de olhar redes sociais?

É estranho, por exemplo, eu me sentir amiga do Antônio Prata ou do David Benincá, sendo que eu nunca os vi pessoalmente, mas já li tanto os dois que parece que já tomei café com o Prata, brinquei com os filhos dele e tive conversas completamente filosóficas com o David, tudo na minha cabeça. Leitura é um negócio louco demais. Como eu cheguei na leitura é mais louco ainda. Alguns diriam que é destino, os mais céticos diriam que é prática.

Sou filha de pai e mãe geógrafos, se conheceram na semana do calouro na Universidade Federal do Pará, uns 8 anos depois eu nasci. Fui criada por minha mãe que me trazia porta malas de carro cheia de livros. Pedro Bandeira, Ziraldo, Mauricio de Souza foram todos meus amigos de infância. Mônica me fez dormir diversas vezes, Laurinha, minha xará, me inspirou a vender desenhos, mas olha: nem sei desenhar. Por causa dessa minha fome por livros, uso óculos desde os meus 6 anos de idade. Tenho 5.75 de miopia e astigmatismo com muito orgulho.

Outra parte da minha formação de vida vem da cidade que nasci e me criei. Fui concebida em Roraima, bem verdade, mas Belém é meu lugar no mundo. Quando saio com meu namorado subo no topo do Forte do Castelo e fico olhando a Baía do Guajará, marrom e brilhante nos raios do Sol. Vocês têm Marília Mendonça, eu tenho Banda Sayonara. Fruto sensual me fez dançar em festas de 15 anos. Já quebrei muita castanha-do-Pará atrás da porta da cozinha, roubei Jambo do terreno da Universidade, já levei manga na cabeça andando pela Avenida Nazaré, já andei descalça no círio, já dancei na chuva no fim da tarde. Inclusive chuva é a coisa que eu mais gosto no planeta. Aquele cheiro de terra molhada, o calor subindo pelo asfalto e se desfazendo no ar já limpou minha alma diversas vezes.

Olho hoje o mundo correndo, pessoas interessadas em dinheiro, status, reconhecimento, fama e completamente alheios ao que mais precisa de atenção: a felicidade. Minha felicidade é deitar numa rede com um copo de suco de cupuaçu do lado e um livro. Minha fuga do mundo é a escrita, sempre foi assim, por isso virei escritora, porque sabia que ia ser feliz. Não escolhi meu curso por dinheiro, escolhi por felicidade. Porque aprendi desde cedo com minha mãe professora que a leitura ia me apresentar mundos e pessoas diferentes e me levar a lugares que nunca conheci e ela tinha razão: Estou escrevendo para um site de Roraima sem nunca ter ido a Roraima, mas já ouvi tantas histórias que sinto que já vivi aí. Que bom que a leitura existe, que bom que lá em 1450 um senhorzinho resolveu imprimir umas palavras aleatórias em papel e chamou aquilo de prensa. Obrigada, Gutenberg.

E eu? Eu sou Laura Celeste Vasconcelos de Barros, mais uma escritora que tenta fazer vida no mundo das letras e da língua portuguesa. 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Meia lua, lua cheia

Dona Cidália acordava todo dia as 7h da manhã, fazia o café de todo mundo e depois ficava esperando a “moça que trabalhava lá em casa” chegar para poder contar como tinha sido a novela e descobrir toda a vida da moça. Passavam horas conversando, as vezes me acordavam de tanto ti-ti-ti na cozinha. Dona Cidália gostava de Elis Regina, Tim Maia e Charlie Chaplin. Gostava também de Carlos Gardel e vez ou outra cantava um bolero pela casa. Toda quarta-feira assistia futebol. Deus o livre perder o futebol de quarta-feira! O atacante do time que ela estava torcendo contra entrava com a bola na grande área e ela já gritava antes mesmo da finalização: “pra fora, pra fora, pra fora!” E como se estivessem a ouvindo, a bola obedecia e ia pra fora. “Dá má sorte gritar gol antes da bola entrar”, dizia me olhando e mexendo os polegares em círculos. As vezes torcia para o Botafogo, mas sempre torcia para o Vasco. Dona Cidália tinha mania de comer castanha-do-pará quebrada atrás da porta da c...

A distância

Aquele abraço de longe Não foi de longe o pior Aquele abraço colado, Meio apertado Foi de perto o melhor E quando a noite findou Que o mundo ruiu E a festa acabou Você se encontrou em si e sorriu   Depois que a chuva passou E o sol abriu Fez um dia preguiçoso E você viu   Veio a saudade tomar conta No meio daqueles braços solitários Que fez o dia inteiro Frio   Vou tentar escrever carta Talvez te ligue fim da tarde Não sei se você sabe Mas tem um tempo que você não parte   Depois que você saiu No meio do abraço apertado Senti seu cheiro suado Colando no meu pedaço Que nunca desistiu   Mesmo que o mundo acabe E as horas passem Vai ter sempre seu encaixe No meu país.   Nota da autora:  Este poema foi escrito em 2020 e deu nome ao meu segundo livro (A distância), mas infelizmente foi cortado na edição. Amo demais e acho injusto ficar sem ser lido por ninguém. O livro está disponível par...

Outubrou!

Duas da Manhã de uma segunda-feira pós eleições. O Brasil desmoronando na cabeça das pessoas. Inúmeras incertezas, preocupações e medo do que nos espera no futuro. Só tem uma pessoa que aparentemente não está nem aí para nada disso: Meu vizinho que está ouvindo “Palavras” do Marcelo Wall, sentado no pátio da sua casa bebendo sua cerveja e sentindo um cheiro de maniçoba exalando de toda a rua e me lembrando que: É círio, Belém! Observo meu vizinho nessa madrugada sentado na cadeira branca de plástico, uma lata de Cerpa na mão e o radinho ecoando a batida do brega que entra pela meia janela aberta da minha sala. Na porta de entrada da casa dele, dá para ver um cartaz do círio colado pronto para saudar quem chegar, na porta da minha casa também tem e me dou conta que todas as casas da minha rua estão com o cartaz da santinha, seja na porta ou na parede, mas sem exceção, ela está lá. Um dia, já faz tempo, estava indo para o centro da cidade em um ônibus parado num engarrafamento ...