Pular para o conteúdo principal

Postagens

Correio Elegante

Querida L., Ler tuas palavras me fez lembrar que esses dias tenho pensando muito em amor e em seus diversos significados. Sempre achei que amor fosse algo além de, sabe? Além de nós, algo ou alguém, que no discurso do dia a dia fosse sempre objeto, complementando o sujeito que somos. Ocorreu-me então que sempre estive errada. E, correndo o risco de soar (ainda mais) terrivelmente clichê, te digo que amor é, e sempre foi, irrevogavelmente sujeito de qualquer oração que nos pertença. Amor somos nós. Amor não vem e não se vai, porque somos sujeito, verbo, objeto, a gramática inteira, desta coisa por tantas vezes sem nome que volta e meia nos toma por completo. Eu sou amor. Tu és amor. E amor que vem de amor, amor permanece. Te sentes perdida e sem rumo, como se o amor tivesse partido de ti e te deixado partida e sozinha, a mercê. Faz sentido. Porque te digo que amor é se perder num país estrangeiro no qual não falas a língua. Cada esquina é um lugar novo. Assustadoramente nov...

Outubrou!

Duas da Manhã de uma segunda-feira pós eleições. O Brasil desmoronando na cabeça das pessoas. Inúmeras incertezas, preocupações e medo do que nos espera no futuro. Só tem uma pessoa que aparentemente não está nem aí para nada disso: Meu vizinho que está ouvindo “Palavras” do Marcelo Wall, sentado no pátio da sua casa bebendo sua cerveja e sentindo um cheiro de maniçoba exalando de toda a rua e me lembrando que: É círio, Belém! Observo meu vizinho nessa madrugada sentado na cadeira branca de plástico, uma lata de Cerpa na mão e o radinho ecoando a batida do brega que entra pela meia janela aberta da minha sala. Na porta de entrada da casa dele, dá para ver um cartaz do círio colado pronto para saudar quem chegar, na porta da minha casa também tem e me dou conta que todas as casas da minha rua estão com o cartaz da santinha, seja na porta ou na parede, mas sem exceção, ela está lá. Um dia, já faz tempo, estava indo para o centro da cidade em um ônibus parado num engarrafamento ...

Obrigada, Pérola.

Faz tempo que tenho mania de passar madrugadas buscando música novas, bandas que eu me encontre ou algo que me deixa satisfeita. Tá fazendo uns 4 anos que a Dani, lá da Hungria, me perguntou: “Já ouviu Rubel?” e fácil assim, com uma pesquisa no Google, encontrei alguém que compartilhasse exatamente as mesmas dores de cotovelo que eu. Rubel só tinha lançado um álbum na época, o Pearl, e que álbum. Já começa com um “Lança o barco contra o mar, venha o vento que houver e se virar, nada”. Meu Deus, senti ali por 2014-2015 que ia ser treta. Era ano de TCC, fim do curso de jornalismo, mil aflições na cabeça, mais uma centena de dúvidas – Que até hoje seguem firmes por aqui- começaram as crises de ansiedade frequentes, mas tinha uma coisa no meio desse turbilhão de emoções que conseguia me deixar calma: Rubel. Para quem não conhece, é um jovem ariano carioca que se formou em cinema mas preferiu ser músico. Tem um tanto, a meu ver, de Marcelo Camelo e Caetano dos anos 70, junto com b...

Incômodos

“- Não te incomoda o fato de saber que a última pessoa que te beijou antes de cair nossa parede não fui eu, foi só mais uma outra na tua conta de garotas do bar?” Quando sentaram a beira da piscina, tarde da noite, e conversaram sobre todo tipo de assunto menos o que realmente importava naquele momento, ela arregalou o olho e enxergou o que sempre quis ver mas não conseguia: ele chorando. Não quis se precipitar, baixou a cabeça e esperou ele terminar de falar, chorando. E ele disse a ela que não ficasse com medo, porque o mundo era muito grande e tinha muita gente e muita vida e muita coisa. E ela concordou. Leu na camisa dele a palavra “hard” e era isso mesmo, difícil. Tão difícil que não imaginava o tanto de coisa que seria deixada para trás. Seguiu-se o passar das horas e o voar das corujas, que sobrevoavam baixo naquela noite, tão baixo que ele se assustou. “Não te beijo”, ele disse, “Não te beijo porque não quero levar mais tempo para te esquecer. Porque agora te vejo co...

Uma história de amor, por favor!

Tem um fenômeno nessa vida que eu gosto muito de acompanhar, e acompanho olhando da janela, que é o mundo girando. Se a gente olha para o céu, vê as nuvens se movendo sempre para frente, elas têm formato de uma porção de coisas que só procurando muito a gente encontra. O que não percebemos é que esse movimento das nuvens vagando pela atmosfera é o mundo girando. Daí você está na praia tomando um sorvete, olha para o horizonte e vê um navio parado. Depois do sorvete você se joga no mar, empina uma pipa, lê um livro, pega um vento e quando vê o navio já está lá longe. O mundo já girou, o tempo já passou e você nem percebeu. Engraçado, né? Essa é a coisa que eu mais gosto nesse planeta (que é redondo, por isso gira). Quando isso vem acompanhado de uma história linda de amor, chega meu coração transborda de esperança. Essa semana fui ao casamento de dois amigos meus. Estudamos juntos o último ano do Ensino médio, onde eles se conheceram. Entre rodas de violão no intervalo, adedonha...

Sol em virgem

As pessoas estão sempre buscando algo em alguém. Ficamos anos da nossa vida procurando aqui e ali, entre rabos de saias, par de calças, pés de chinelo, alguma coisa que nos complete, que nos motive, que nos dê esperança de viver. Mas muitas vezes não notamos que tudo o que a gente precisa está dentro da nossa casa. Me dei conta de que quem eu mais preciso nesse mundo é da minha mãe e nem adianta eu olhar mais, minha mãe é primeira e a última a estar comigo. Me dei conta disso no último dia 1°. Eu e minha mãe já passamos por uns bocados e trocados. Primeiro que para eu nascer ela teve que fazer tratamento porque não podia engravidar. Fui mais que planejada, fui sonhada. Tive meu nome escolhido antes mesmo de nascer, num quarto de hotel em Copacabana. Nasci. Fiz um ano e peguei pneumonia. Fiquei na UTI, fiz cateterismo, tenho uma cicatriz na axila – que ora eu gosto por me lembrar que eu já venci essa bandida que é a morte, ora eu odeio por ser horrível de depilar ou botar uma rega...

Faltou

Ih, faltou. Faltou a roupa espalhada pela casa, a comida quente na panela, a colcha da cama revirada. Faltou prato e copo em cima da pia, sorvete no congelador, água no bebedouro. Faltou a mesa de centro da sala decorada, a cueca no cesto de roupa suja, o varal armado no quintal. Faltou juntar meus fios de cabelo do ralo do banheiro, a escova de dente usada dentro do espelho. Ih, faltou. Faltou eu te dar a nota de compras do supermercado, faltou comprar o presente da Michele, faltou ligar pra Karina e desejar feliz aniversário. Faltou comprar um sofá maior, fazer cafuné até as duas da manhã, ouvir a nova música do Two door cinema club. Faltou aquela viagem para ver seus pais, como estão seus irmãos? Faltou te dizer que eu acordei de madrugada porque o gato da vizinha estava miando no quintal e depois correu pelo telhado fazendo um barulho que parecia que estavam tentando invadir a casa. Faltou cobrir o bolo de chocolate com café que minha tia me ensinou a fazer só para quando tu che...